Alergênicos – Parte 4: VITAL® – Voluntary Incidental Trace Allergen Labeling

O mais importante trabalho do Allergen Bureau mostrado pela Stephanie (ver post Alergênicos – Parte 1: Responsabilidade Compartilhada noAllergen Bureau), foi concretizar o desenvolvimento do VITAL®, uma ferramenta de avaliação de risco de alergênicos para os produtores de alimentos, iniciado em 2004.
Para esta tarefa, o Allergen Bureau formou um painel de experts científicos, o VITAL® Scientific Expert Panel (VSEP), a fim de revisar dados científicos sobre os limiares de alergênicos alimentares. Esta revisão era crítica para poder fundamentar a tomada de decisões pelo produtor de usar (ou não) na rotulagem a declaração “pode ​​estar presente”, padronizada pelo VSEP, garantindo assim de fato a proteção  do consumidor alérgico.
Fonte: www.tcgffoodsafety.com

Antes de ser lançado, o VITAL® foi submetido a testes pilotos, considerados bem sucedidos e que “resultaram em uma equipe focada e cheia de energia”, segundo a palestrante. Lançado em junho de 2007, tem sido continuamente aperfeiçoado e aprofundado, consistindo atualmente dos seguintes materiais, além de outros apoios disponibilizados pelo Allergen Bureau:

  • VITAL®  Guide
  • VITAL® Calculator
  • VITAL® Allergenic Protein Level

Em julho deste ano será lançado o VITAL® Online, com várias melhorias feitas com base na contribuição de um grupo de usuários.


Stephanie concluiu sua palestra afirmando que:

•  O uso do Allergen Bureau VITAL®  está propiciando consistência à avaliação de riscos de alergênicos e está crescendo em todo o mundo
• A gestão de alergênicos continua a ser uma prioridade máxima de segurança de alimentos, que requer investimento contínuo em educação e processos
•  A Nestlé continuará a apoiar estas iniciativas de gestão de alergênicos de apoio à indústria em um ambiente pré-competitivo.

Para encerrar esta série de posts sobre a palestra da Stephanie sobre alergênicos e as pesquisas que fiz para aprofundar as informações por ela apresentadas, informo que os materiais da série VITAL® estão disponíveis para download no site allergenbureau.net, mas para obter o VITAL® Calculator você tem antes que se cadastrar no site, onde indicado.
Fonte: www.tcgffoodsafety.com

Alergênicos – Parte 3: Allergen Collaboration & Allergen Portal

Paralelamente ao trabalho do Allergen Bureau mencionado em post anterior, o FSANZ – Food Standards Australia New Zealand,  criou em 2011 o grupo Allergen Collaboration para fortalecer o engajamento e colaboração entre os atores envolvidos na gestão de alérgenos alimentares. Seus membros incluem representantes de fabricantes de alimentos, consumidores e governo, e se reúnem periodicamente para explorar medidas não regulamentares que podem melhorar a gestão de alérgenos alimentares.
Resultados até o momento: auditoria material de comunicação relacionado a alergênicos, desenvolvimento de uma série de mensagens-chave sobre a gestão de alérgenos alimentares para diversos setores da cadeia de alimentos e a criação do Allergen Portal,  alojado no site do FSANZ.


O Allergen Portal fornece acesso a informações sobre gestão de alergênicos para auxiliar as partes interessadas:
– indústria de alimentos (fabricantes, varejistas, serviços de alimentação e importadores)
– consumidores
– para creches e escolas
– para profissionais de saúde
– para organizações governamentais


Comentário meu: e no Brasil, temos algo semelhante?
Mesmo que tenha demorado algum tempo, a ANVISA agora está fazendo esforços para regulamentar a questão dos alergênicos no Brasil, tendo lançado em 2 de abril de 2014 a Consulta Pública nº 29/2014 para rotulagem de fontes de alergias ou de intolerâncias alimentares, obtendo recordes de respostas. Esta Consulta Pública prevê regras para as oito principais categorias de alimentos alergênicos: leite, ovos, amendoim, nozes, trigo (incluídos o centeio, aveia e cevada), crustáceos, peixes, soja. A proposta também prevê que os rótulos indiquem sua presença do alimento, no caso de ingrediente ser derivado destes alimentos alergênicos.
Em 6 de maio a ANVISA realizou a primeira uma audiência pública sobre rotulagem de alergênicos, com vários stakeholders presentes. Como a novidade surgiu a inclusão do látex e de coco (Cocos nucifera),  o que tem gerado controvérsias, já que estes alergênicos não fazem parte dos “big eight″ definidos pelo Codex Alimentarius. Mas vale lembrar que o látex pode fazer parte de gomas de mascar, de adesivos de embalagens para alimentos e há relatos de alergia ao coco.

Parece que estamos caminhando, certo?

Alergênicos – Parte 2: Como funciona o Allergen Bureau

Achei tão interessante o trabalho do Allergen Bureau, mencionado no post anterior, que decidi investigar como foi criado e como funciona.

O Allergen Bureau reuniu a colaboração de várias ONGs, entidades e agências governamentais que já trabalhavam direta ou indiretamente com alergênicos: a AFGC – fórum de estudo e discussão sobre alergênicos criado pelo Australian Food & Grocery Council, entidade que congrega indústrias de alimentos e varejistas, com objetivo de aumentar a competitividade do setor de alimentos e de outros bens de consumo; a ASCIA  – Australasian Society of Clinical Immunology and Allergy, uma ONG de médicos e profissionais especializados em alergias e imunologia clínica, o FSANZ – Food Standards Australia New Zealand, agência de governo bi-nacional da Austrália e Nova Zelândia, responsável pela legislação de alimentos compartilhada por esses dois países.

O Allergen Bureau contou também com o apoio fundamental da FIAL –  Food Innovation Australia. A FIAL é uma entidade custeada pelo governo, mas liderada pela indústria, com foco em novas oportunidades e construção de resiliência da indústria de alimentos e  de bebidas, bem como construção de vantagem comparativa em nichos de mercados-alvo no exterior.  Conforme afirma Dra Mirjana Prica, atual Diretora Executiva,  a FIAL “é o catalisador para um futuro seguro e de confiança para a indústria de alimentos e agronegócios na Austrália”.


Alergênicos – Parte 1: Responsabilidade Compartilhada no Allergen Bureau

O tema central da Conferência deste ano de 2015 foi responsabilidade compartilhada. Cada vez mais a comunidade da cadeia de alimentos entende que segurança de alimentos é bem comum que deve ser tratado pelos stakeholdersde forma compartilhada, já que envolve trocas ao nível global, e que a maioria dos problemas de segurança envolve ações que vão do campo à mesa, e o mais comum é que nem todos os elos desta cadeia encontram-se em uma mesma região, e muito menos sob uma mesma responsabilidade.
Stephanie Hart, Diretora Executiva de Operações da Nestlé Oceania, mostrou como um grande grupo de stakeholders da Austrália e Nova Zelândia, colocou em prática, de forma brilhante, este conceito da responsabilidade compartilhada, contribuindo não só para a melhoria da avaliação de risco para alergênicos na Austrália e Nova Zelândia, mas como disponibilizou para todo o mundo a ferramenta VITAL®, que será abordada em novo post.

Autor foto: Ellen Lopes

Stephanie explicou o cenário de alergênicos na Austrália e Nova Zelândia, que aponta que 1 em cada 10 bebês tem ou desenvolverá problema com alergia a certos alimentos.

Fonte: www.tcgffoodsafety.com    

Explicou ela que “a legislação na Austrália/ Nova Zelândia estabelece que qualquer um dos principais alérgenos alimentares devem ser rotulados quando presentes em um alimento (ingrediente, aditivo ou auxiliar de processamento ou de um componente de um destes): amendoins e nozes, cereais que contêm glúten, gergelim, soja, ovos, leite, peixes e crustáceos, sulfitos adicionados se mais de 10 mg/ kg no produto final. Os produtos obtidos a partir de qualquer destas substâncias devem também ser indicados, se forem utilizados”.
Na prática, para se resguardar de problemas, quando os fabricantes suspeitam de contaminação cruzada durante processo, ou quando não conseguem ter certeza sobre ausência de alergênicos provenientes de ingredientes/ aditivos, tem sido comum optarem por colocar no rótulo alertas do tipo “pode conter x, y , z …. alergênicos”, resultando em poucas opções para os consumidores que necessitam de produtos de fato sem tais alergênicos.
Para resolver este problema, o Australian Food & Grocery Council Allergen Forum, que já vinha estudando o problema de como apoiar os fabricantes a identificar se de fato o produto era isento de alergênicos provenientes de contaminação cruzada, em 2005 criou a ONG Allergen Bureau com o objetivo de compartilhar informações e experiências sobre a gestão de alergênicos alimentares entre as indústrias de alimentos, para assim garantir que os consumidores receberiam informações relevantes, consistentes e fáceis de serem entendidas.

O Allergen Bureau é um maravilhoso exemplo de cooperação interativa na forma de rede, entre concorrentes da indústria de alimentos, congregando desde empresas nacionais e multinacionais de fabricação de alimentos,  empresas de marketing, fornecedores, importadores, exportadores, varejistas e grupos de consumidores sobre como gerenciar os riscos de alérgenos alimentares na indústria visando a segurança dos consumidores. Conta com grupos de trabalho voluntário de várias indústrias (ex. Nestlé, Mars, Unilever), laboratórios, além de mais 24 membros e 17 associados em torno da missão: “Trabalhando juntos para conduzir iniciativas de gestão de alergênicos”. 



McCormick mostra que ainda há que se promover e apoiar mais o GFSI

Han HaiZhou, Diretor de Garantia da Qualidade da McCormick Ásia, mostrou que, apesar da evolução representada pelo processo de harmonização estabelecido pelo GFSI, os clientes de sua empresa vêm exigindo auditorias de múltiplos sistemas de segurança de alimentos e qualidade. Fato curioso, e eu diria até surpreendente, é que esta exigência parte também de algumas empresas que são apoiadoras da iniciativa do GFSI.

A McCormick da Ásia, pertence ao grupo McCormick, com sede em Baltimore, Maryland, Estados Unidos. Fabrica temperos, ervas e aromas para o varejo, e ingredientes para inúmeras indústrias de alimentos. É responsável por criar soluções de sabor personalizados para 9 dos 10 maiores fabricantes de alimentos multinacionais, e 8 das 10 maiores redes de foodservicedo mundo.

Autor foto: Bailey Thomas – www.mygfsi.com
HaiZhou discorreu primeiramente sobre os fundamentos do sistemas da qualidade e segurança de alimentos da McCormick, que como pode se percebido no slide abaixo, são de maneira geral os mesmos adotados pelas empresas que seguem bons sistemas de segurança de alimentos.

Fonte: www.mygfsi.com


HaiZhou relatou resultado de uma avaliação comparativa dos requisitos exigidos pelos seus clientes, concluindo que cerca de 85% destes requisitos são comuns para todos estes diferentes sistemas e para o sistema da McCormick.



HaiZhou mostrou  também que  os 15% de requisitos diferentes em geral se deve a dois fatores: requisitos específicos da legislação do país (ou região) do produtor e do país (ou região) do cliente, ou a requisitos “adicionais” específicos da empresa cliente.


Fonte: www.mygfsi.com

Meu comentário: as diferenças devido à legislação e regulamentos seria lógico de se prever, pois é sabido que há diferenças previstas no Tratado de Barreiras Técnicas e no Acordos Sanitários e Fitossanitários (SPS, em inglês), conforme necessidade específica imposta pela realidade de diferentes  países e ou regiões, o que é considerado apropriado, sempre que não se constituam em barreiras técnicas. Vale observar que todas as normas harmonizadas pelo GFSI sempre estabelecem que o respeito à legislação/ regulamentação.

Ao final de sua palestra, HaiZhou fez um apelo aos seus clientes de que aceitem as certificações de suas fábricas, pois estas são baseadas em normas reconhecidas pelo GFSI. Mostrou ele que isso diminuiria muito o fardo das mais de 20 auditorias por ano, deixando que os clientes gastem esforços somente nos requisitos que de fato sejam adicionais.

Relembro aqui o lema do GFSI: “Certificado por um*, reconhecido por todos”, e me permito comentar que por vezes observa-se uma certa incoerência de algumas empresas que apoiam, e até participam do  GFSI, mas que na prática continuam a exigir alinhamento com sistemas próprios, ou induzindo seus fornecedores a implementar sistemas de sua preferência.

Por quê isso ocorre? Até onde conheço, entendo ser por desconhecimento do próprio sistema de harmonização do GFSI. Ou por desconhecimento das outras normas/ esquemas. Outra hipótese é a natural tendência de ater-se ao paradigma do conhecido sem sequer questionar e conhecer novos outros paradigmas possíveis. Claro que há pequenas diferenças entre as normas/ esquemas que podem ser ou não vantajosas sob algum ponto de vista. Mas sem conhecer tais diferenças, a adoção de uma norma/ esquema apenas porque os responsáveis se colocaram “no piloto automático”, me parece uma acomodação sem nenhum mérito, que pode em certos casos implicar na escolha do caminho de maior gasto, e não o de melhor resultado, como pode parecer à primeira vista.

* um aqui significa esquema ou norma

Fonte: www.mygfsi.com


Após justificada ausência, volto a publicar posts da Conferência 2015 do GFSI

Repentinamente, minha agenda, que estava mais tranquila, voltou a ficar lotada de compromissos, dentre os quais dois webnars, um para o Brasil, e outro para a América Latina, além de um Workshop presencial, todos realizados em parceria com a DNV GL Brazil.
A DNV GL Brazil, assim como a Food Design, têm como ponto forte a constante atualização de suas equipes, sendo que ambas empresas consideram essencial sua participação nas Conferências do GFSI, que já acompanham  desde 2009.

Ambas empresas partilham a crença de que segurança de alimentos é bem comum, e por isso têm compartilhado os aprendizados capturados nestas Conferências com a comunidade da cadeia de alimentos.


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